Economistas dizem que Brasil está se desindustrializando e veem problemas à frente
SÃO PAULO -
Mesmo com o otimismo generalizado com o Brasil, os palestrantes
presentes no evento da Fundação Getulio Vargas apresentaram diversos
problemas do País – entre eles, o que o diretor-presidente da CSN (CSNA3) e
presidente da Fiesp, Benjamin Steinbruch, chamou de importações
descontroladas.
“O nosso modelo é de desindustrialização. Tivemos um déficit de
manufaturados de US$ 35 bilhões de dólares no ano passado, este ano deve
ser de US$ 60 bilhões. Grãos, minérios e combustível mascaram esses
resultados”, disse o executivo. A tendência, segundo ele, é que a
situação externa siga piorando no segundo semestre – o que é um risco
para esse modelo.
“Vamos ter uma crise serrote – esse sobe desce vai permanecer durante
muito tempo. Isso deve ser uma prioridade para o ministro (da Fazenda,
Guido) Mantega – o Brasil não pode ser tão dependente assim”, afirmou.
4 anos, 40 anos
Da mesma maneira, o professor de economia José Luís Oreiro também criticou a desindustrialização do País – e, destoando dos demais palestrantes, inclusive do próprio Guido Mantega, afirmou que vê o futuro brasileiro com bastante pessimismo.
“Se dermos muita sorte, teremos uma crise de balanço de pagamentos em
2012. Mas podemos dar azar – se o pré-sal impedir essa crise. Se isso
ocorrer, o Brasil vai passar por um processo lento de
desindustrialização que vai minar o crescimento do País”.
O desempenho brasileiro nos próximos quatro anos pode até ser
positivo, para o professor – entretanto, o problema está nos próximos 40
anos. “Esse modelo de tripé da política econômica – controle da
inflação, cambio flutuante e superávit primário – vai nos jogar em uma
ladeira que vai jogar fora nossa industrialização”, argumenta.
Oferta, demanda e câmbio
Yoshiaki Nakano, diretor e professor da Escola de Economia da FGV-SP apresentou uma visão semelhante. Evitando usar a palavra desindustrialização, Nakano afirmou que a estrutura produtiva do País está em uma especialização regressiva – que significa, basicamente, andar para trás. Um exemplo, segundo ele, pode ser visto entre as siderúrgicas, “que estão, ao invés de exportar aço fino, se tornando mineradoras”.
Ele credita grande parte desse movimento ao surgimento de um outro
centro para a economia global – a China – que tem pesada demanda por
commodities.
“Os EUA deixarão de ser a locomotiva global, forçando os
emergentes a buscarem outro foco. O fluxo de capitais dos emergentes
deve ser menor com a desalavancagem do sistema financeiro – com isso,
somado a outros fatores, temos o fim do fetiche do financiamento
externo”, afirma Nakano.
Isso, por si só, provoca uma valorização da taxa de câmbio, questão
que deve ser olhada com cautela pelo governo. A apreciação da taxa de
câmbio também é vista por Oreiro – e, em sua opinião, deve ser a
primeira a ser mudada. “O governo hoje atua como market maker no mercado
de câmbio”, explica. Para ele, um fundo poderia assumir esse papel,
assumindo a administração da taxa cambial a uma taxa competitiva, "tendo
a atribuição também de manter um controle de capitais dinâmico e
abrangente”.
Já o economista e ex-secretário da Cultura de São Paulo, João Sayad,
sugeriu que a taxa de câmbio pudesse ser estabilizada através de outro
instrumento - a taxa de juros, a âncora da inflação. Fernando Holanda
Barbosa, também professor da FGV, discordou de Sayad, e afirmou que o
primeiro passo é acabar com a descoordenação das políticas fiscal e
monetária – e, consequentemente, do Banco Central e Ministério da
Fazenda. “Precisamos remontar o sistema operacional do BC (...)
Precisamos ser mais como o Japão”, apontou.
Pelo mesmo motivo, Barbosa também foi contra a ideia de Oreiro da
criação de um fundo para lidar com o câmbio – que, em sua visão, só
pioraria essas desconexões.
Ainda sobre a questão oferta/ demanda, Nakano aponta que o problema
surge somente em uma das pontas. “Enquanto o potencial de oferta dos
emergentes segue, eu não tenho um pólo dinâmico como os EUA, que agora
tem que reduzir seu déficit de transações correntes. Estamos muito
abaixo da fronteira tecnológica, então pelo lado da oferta o problema
não existe – o desafio é a demanda. Vamos ser capazes de estimular e
calcular a demanda global agregada para crescer de maneira eficiente?”.
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